Era uma calcinha vermelha, dessas bem pequenas. Desse tipo que não cobre nada atrás, tem só um fiozinho que fica enfiado na bunda. E um coração de pedrinhas brilhantes, unindo as três pontas do fio. Era uma calcinha que ela jamais usaria. Não por pudor ou preconceito, mas porque não achava que calcinhas "fio-dental" fossem adequadas ao seu tipo físico. Há que se manter a elegância! Sua bunda era magrinha, assim, meio achatada, dessas quase sem rego. Não que fosse muito feia, mas também não era desse tipo de bunda que chama a atenção. Era uma bunda... insignificante. Na verdade, ela não gostava mesmo da sua bunda e por isso não usava esse tipo de calcinha. Jamais usaria uma calcinha de renda vermelha, fio-dental, com coração de strass, como a que achou no bolso do paletó do marido. O primeiro impulso foi esfregar a calcinha na cara do safado e perguntar: De quem é isso? Há quanto tempo vocês têm um caso? E em seguida pedir o divórcio. Após 24 anos de casamento. Quase bodas de prata. Festa preparada, organizada pelos filhos. Imagina a reação dos filhos! Convites enviados... Achou melhor não dizer nada por enquanto. Homem sempre mente. Era capaz de inventar uma desculpa. Melhor que ele não soubesse que ela sabia. Uma vez dito, não pode ser desdito então é melhor ficar quieta até pensar em um plano melhor. E guardou a calcinha novamente no bolso do paletó.
No dia seguinte, depois que ele saiu, foi lá conferir e a calcinha não estava. Ele levou o paletó e a calcinha no bolso. Desgraçado, certamente vai encontrar a vadia! Como será ela? Para usar uma calcinha assim deve ter uma bunda incrível. E ficou imaginando a bunda da vagabunda: Dura, empinada, farta. Redonda, cheia, lisa. Glútea, brilhante, perfeita! Dessas que todo homem vira a cara para olhar. Dessas de mulata-de-escola-de-samba-globeleza. Dessas que engolem uma calcinha inteira... Sobra só o coraçãozinho em cima, o resto fica perdido no meio das entranhas. Sabe-se lá até onde se enfia esse tipo de calcinha! Ela não sabia, nunca usou.
Podia ver o marido olhando aquela bunda enorme com a calcinha enfiada. Ajoelhado, babando, rastejando, apalpando a bunda indecente. E a bunda rebolando. Aquela bunda que era muito melhor que a sua. Imaginou sua bunda ínfima ao lado da bunda poderosa, o marido apalpando as duas bundas, uma com cada mão, as duas lado-a-lado. A outra rebolando cada vez mais rápido e a sua completamente travada. A outra dançando funk: Abaixando e rebolando... Levantando e rebolando. A sua cada vez mais tímida. E o marido apalpando as duas. Começou a chorar pela tristeza da sua bunda inóspita e pelos quase 25 anos de casamento jogados no ralo do esgoto.
Devia ser burra, a fulana. Porque, com uma bunda dessas, podia arrumar coisa melhor que o seu marido. Bem melhor, e não era difícil. Vai ver que é pobre, a coitada. Dessas pilantras que querem dar golpe em otário. Porque para querer um senhor barrigudo, careca e de bigode amarelado pelo péssimo hábito de fumar cachimbo, só mesmo se estiver interessada no dinheiro. Fazem o cara ficar louco, tiram tudo o que tem e depois caem fora com um amante saradão. Às vezes o amante até dá surra no otário. Merecida essa surra, otário que trai esposa decente tem mais é que apanhar mesmo! Imaginou o velho safado levando porrada do malandro sarado. Bem saradão... Depois o marido voltando com a cara lavada, pedindo perdão para ela. Ah, isso ela não ia aceitar! Nem que ele peça de joelhos. Implore. Nem que se humilhe. Rasteja seu imundo, volta pra lama de onde veio, que lá é o seu lugar!
Engoliu as lágrimas e decidiu tirar a história a limpo. Não ia esperar a vagabunda consumir toda a sua vida. Tomou um banho, vestiu uma roupa decente e foi em direção ao escritório dele. Será que é lá que ele encontra a vadia? Era advogado e trabalhava sozinho. Podia apalpar quantas bundas quisesse em horário comercial, sem ninguém notar. Desgraçado! E sempre fazendo pose de homem honesto, marido exemplar. Belo exemplo de cafajeste, fazendo orgias no escritório. Sabe-se lá que tipo de antro era aquilo. E a tal secretária nova? Será que a bunda era da secretária? Ela não a conhecia. Só podia ser ela! Tinha uma voz rouca. Voz de disque-sexo. Voz de vagabunda. Dessas que ficam empinando a bunda e falando coisas indecentes para os homens, fazendo cara de safada, com o dedo na boca. Imaginou a secretária loira, com o cabelo até a cintura, quase chegando no coração da calcinha, deitada de bruços em cima da mesa do marido e falando indecências ao telefone. E o marido passando a mão na bunda.
Levou a cópia da chave que o marido deixava em casa. Entrou no escritório sorrateiramente, a secretária não estava na recepção. Tudo em silêncio. Na porta da sala dele um aviso de "não perturbe". É agora! Abriu bem devagar uma frestinha na porta e encostou um olho. Algo se movia. Viu de relance uma parte da calcinha. Depois viu uma bunda na calcinha. A bunda se moveu e saiu do seu campo de visão. Tremendo dos pés à cabeça, soltou um grito lancinante e abriu a porta de uma vez.
Ao ouvir o grito da mulher, a secretária voltou correndo do banheiro. Era uma senhora baixinha e atarracada, que tinha uma pinta preta sobre o lábio superior e usava óculos pesados. Ao entrar na sala, deparou-se com uma mulher trêmula e estupefata, gritando histericamente diante do seu chefe, aquele senhor barrigudo, careca e de bigode amarelado, quase nu, vestido apenas com uma calcinha vermelha. Fio-dental.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
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